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01 julho 2008



Mercado MedievalAmor e Guerra - "A Luz e as Trevas"



Para esta edição conta-se com algumas novidades, nomeadamente com a presença de acampamentos de grupos de recriação histórica, vindos de seis países europeus, e com a recriação de uma Caçada Medieval.
A caçada é uma acção radical destinada a um público jovem e que consiste num jogo em que os participantes (à vez, ou em equipa), vestidos à época e armados com bestas ou arcos, terão de procurar num grande espaço arborizado, delimitado por corda por motivos de segurança, diversos alvos clássicos em 3 dimensões representando animais, procurando pontuar, acertando a uma distância de 12 metros. Esta actividade obedece a uma inscrição paga.
Atendendo a essas actividades e ao facto da necessidade de satisfazer os muitos milhares de visitantes, para o efeito, iremos contar com a utilização do Parque da Vila existente no terreno situado a Sul, aumentando, substancialmente, a área habitualmente ocupada.
Por uma questão de ordenamento do espaço, as tasquinhas estarão disseminadas pelo recinto; o recinto de torneio será montado na área da do Parque da Vila; o espaço destinado à Caçadas Medievais será numa zona arborizada junto à zona da Liça; a área de acampamentos utilizará o restante terreno do Parque da Vila; e o Mocharro será adaptado a zona de animação.
Tal como no ano transacto, a entrada do recinto continuará a ser a Porta da Talhada e a saída será pela Porta de Santiago.
Em contraponto com a área de Acampamentos que representará os aspectos mais rurais e bélicos da Idade Média, na zona da Cerca, será montada uma zona cenográfica recriando aspectos eminentemente urbanos preparados especificamente para ser animada por personagens citadinas. Para o efeito, o cenário terá possibilidade de circulação interior permitindo aos actores o acesso a janelas, varandas e uso de portas para recriar a vivência quotidiana de uma urbe medieval.

Espero não ter encontros imediatos de 3.º grau!!!
LOLOLOL
A gente vê-se lá, AMIGOS! Quanto aos aliens...Uffff...

13 junho 2008

Comprei a biblia dos Badochas!


Como ainda há coisas boas, fomos à feira do livro, e meus amigos, tenho a dizer-vos, é espectacular!
Podemos sempre comprar os nossos livros preferidos muito mais barato! E como não podia deixar de ser, e como bom Gourmet que me tornei, comprei a bíblia de todos os Gourmets: o Livro de Pantagruel (ao preço da chuva) portanto, a partir de agora, preparem-se que vai chover receitas não só do Pamta, mas minhas e de outros livros! Cá estaremos para ajudar o pessoal a comer o que é verdadeiramente fantástico! A pensar que comecei com uma carnezita assada no fôrno e já fui até ao peru recheado feito inteiramente por mim, tão bom que o meu cunhado Luís não se cala desde Natal para repetir. Foi deveras moroso e trabalhoso, mas ficou absolutamente maravilhoso.

É de salientar que todas as minhas receitas terão sido todas experimentadas, e haverá fotografias não só a comprová-lo como para abrir apetites mais enfastiados.

Preparem-se!! Isto vai doer!

A gente a partir de agora, além de nos vermos na Expo, vamos passar a ver-nos na minha fabulosa cozinha!!!

16 abril 2008

Um dia sem sorrir é um dia perdido

A frase título deste post obviamente que não é minha, embora acredite nela à muito, muito tempo. A frase é desse grande génio que hoje quero prestar a minha homenagem. Comemora-se hoje os 119 anos do seu nascimento (nasceu em Londres a 16 de Abril de 1889). Estamos a falar de quem eu considero o maior génio do cinema, Charles Chaplin.

Era eu ainda muito pequeno quando comecei a ver as suas curtas-metragens na televisão, e fascinava-me aquele vagabundo de chapéu de coco preto, smoking a "pedir reforma" preto, bengala e andar com os pés às 10 para as 2 (LOL), embora tivesse a dignidade e cavalheirismo de um "Sir". Na altura gostava dos seus filmes porque esse andar desajeitado e as suas trapalhadas me faziam rir, não alcançando minimamente o alcance que esses filmes tinham. Foi já com os meus 15/16 anos que comecei a ver as suas longas-metragens com outros olhos, e ainda mais ganhei fascínio a esse actor, produtor, realizador, autor, argumentista, empresário e musico. Um verdadeiro Homem dos 7 ofícios.

Os Filmes "O Míudo", "Luzes da Ribalta", "Tempos Modernos", "O Grande Ditador", "O circo", "Luzes da Cidade", "A Quimera do Ouro" foram classificados pela industria do cinema como estando dentro dos melhores 100 filmes da historia do cinema. Só mesmo um génio conseguiria que 7 filmes entrassem nesta tabela consagrada. Critico e perspicaz na mensagem dos seus filmes, Chaplin critica, com uma visão muito socialista e humana, a quebra de valores e o caminho da decadência que a revolução industrial e o liberalismo puro e duro trouxeram na evolução social. Faz uma justa e linda ode ao Amor, como é exemplo disso o filme "Luzes da Cidade" (a mensagem é - o Amor é cego!), e antes de tudo e todos desmascara Hitler em "O Grande Ditador". Ainda com respeito a este filme que mencionei, Chaplin quando descobriu o horror do Holocausto Nazi afirmou que se soubesse desta tragédia antes não teria brincado como brincou com este tema (como nota há que referir que o filme é de 1940 e o holocausto Nazi foi tornado publico em 1945).

Esta visão perspicaz da sociedade e a sua crítica mordaz valeu com que sofresse variadas perseguições no seu país natal, bem como no seu país de adopção, o que fez com que escolhesse a Suíça como seu último refugio nos seus últimos 25 anos. Por incrível que pareça, dado à sua genialidade e versatilidade, a perseguição a este artista foi tanta que a academia de Hollywood, apesar de inúmeras nomeações, só lhe atribuiu o Oscar de carreira e já estávamos em 1972. Foi uma das maiores ovações de sempre, com toda a gente de pé a aplaudir por mais de 5 minutos. Não está ao alcance de qualquer um.

A 25 de Dezembro de 1977, o mundo viria a despedir-se desde "Sir" (sim, a rainha concedeu-lhe este título honorifico em 1975). Curioso. Morreu no dia do ano que mais detestava.

Assim, e para finalizar, tenho a dizer que é uma das figuras da humanidade que mais admiro e prezo, e orgulho-me de poder ter partilhado a minha presença neste planeta com esta alma GIGANTE durante 10 meses de vida. Como despedida deixo-vos algumas frases marcantes deste Senhor, bem como um vídeo de homenagem que descobri no famoso Youtube, e em que a musica de fundo foi escrita e composta também por Chaplin.

"
A humanidade não se divide em heróis e tiranos. As suas paixões, boas e más, foram-lhe dadas pela sociedade, não pela natureza."

"
Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da platéia que sorria."

"
O amor perfeito é a mais bela das frustrações, pois está acima do que se pode exprimir."

"Durante a nossa vida:
Conhecemos pessoas que vem e que ficam,
Outras que, vem e passam.
Existem aquelas que,
Vem, ficam e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vem e se vão com uma enorme vontade de ficar..."



Palavras para quê? Sejam felizes e tenham sempre um sorriso à mão!!!

10 abril 2008

O Principezinho

Meus amigos,

Não queria deixar de partilhar com vocês o meu capítulo preferido do meu livro preferido.
Das 1000 vezes que o li, pareceu-me sempre diferente, mais puro e mais enriquecedor.
Precisávamos de mais "principezinhos" neste mundo...





...Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...

Foi então que apareceu uma raposa .

- Olá, bom dia! disse a raposa.

- Olá, bom dia! - Respondeu delicadamente o principezinho...

-Anda brincar comigo - pediu o principezinho. Estou tão triste...

- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...

Andas à procura de galinhas? (diz a raposa)

Não... Ando à procura de amigos. O que é que "cativar" quer dizer?

... Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.

Laços?

Sim, laços - disse a raposa. - ...

Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo e eu serei para ti, única no mundo...

(raposa) Tenho uma vida terrivelmente monótona...

Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia se Sol.

Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? ... não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti...

- Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora já não tem tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!

E o que é preciso fazer? - Perguntou o principezinho.

- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada . A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar mais perto...

Se vieres sempre ás quatro horas, ás três já eu começo a ser feliz...

Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da despedida:

- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...

... Então não ganhaste nada com isso!

- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...

Depois acrescentou:

- Anda vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo.

O principezinho lá foi... - vocês não são nada disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês... - não se pode morrer por vocês...

... A minha rosa sozinha. vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei, que eu abriguei... Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, ás vezes calar-se. Porque ela é a minha rosa.

E então voltou para ao pé da raposa e disse:

- Adeus...

- Adeus - disse a raposa. - vou-te contar o tal segredo. É muito simples:

Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...

Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela.

Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...

Antoine De Saint-Exupery "O Principezinho"

Sejam Felizes!




TABACARIA
(15-1-1928)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos


Como estamos numa boa onda de educação e cultura, queria deixar-vos com este poema lindíssimo, que lido em pequenos trechos se identifica com um bocadinho de nós. Aproveitem para serem grandes e evoluídos...

A gente continua a ver-se na expo! LOL

07 abril 2008

Homenagem a Almada Negreiros


Hoje lembrei-me de Almada Negreiros. Se hoje fosse vivo faria 115 anos (sim nasceu a 7 de Abril de 1893). Foi um artista multidisciplinar, pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista português ligado ao grupo modernista, onde pontificavam ainda Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa, entre tantos outros carismáticos do século XX. Espectacular a entrevista que deu ao programa Zip Zip da RTP, na década de 60, e que ainda hoje pode ser vista ou revista na RTP Memória (não serve só para ver jogos do Benfica quando ganhava campeonatos - não resisti hehehehe). Deixou-nos a 14 de Junho de 1970, mas deixou-nos uma vasta obra para apreciar.

Hoje lembrei-me de um dos seus textos mais sublimes - Manifesto Anti-Dantas. Pesquisei no maravilhoso mundo da World Wide Web, e eis que encontrei na integra esse maravilhoso texto (podem vê-lo aqui). Deliciei-me mais uma vez a lê-lo.

Assim, deixo aqui um breve excerto que quero dedicar a TODAS e TODOS os Dantas que continuam a proliferar por aqui e a fazer "PIM-PAM-PUM".

"BASTA PUM BASTA!

UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!

UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!

O DANTAS É UM CIGANO!

O DANTAS É MEIO CIGANO!

O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!

O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!

O DANTAS É UM HABILIDOSO!

O DANTAS VESTE-SE MAL!

O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!

O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!

O DANTAS É DANTAS!

O DANTAS É JÚLIO!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!

E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADECEU!

O DANTAS É UM CIGANÃO!

NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!

NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!

O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR... MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!

O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!

O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!

O DANTAS NÚ É HORROROSO!

O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!

SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!

O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!

E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!

E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!

E QUEM LHE LAVE A ROUPA!

E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!

E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM É INTELLIGENTE NEM DECENTE, NEM ZERO!

(...)"

A gente vê-se!

28 março 2008

Portishead - Coliseu dos Recreios 27 Março de 2008

Pois é! O Paradoxo da batata que é frita foi até ao Coliseu dos Recreios ver um grande concerto.

Após 10 anos de ausência de uma tour oficial, os Portishead regrassaram à rua, e escolheram Portugal como porto de partida com dois magníficos concertos. O primeiro na cidade Invicta a 26 de Março, e o outro (que contou com a nossa muito valiosa presença) em Lisboa no Coliseu que é dos Recreios, em mais uma data que irá ficar pelo menos para a minha história - 27 de Março de 2008.

Como disse inicialmente e na minha percepção, foi um grande grande concerto. Numa escala de 0 a 10, concordo com a minha querida Io que o classificou com nota 8. Vá... eu talvez dê um 8,5!!! LOLOLOL

Este concerto começou às 21h em ponto com a actuação de uma banda americana muito, muito fraquinha chamada A Hawk and a Hacksaw. Às 22h10m (aproximadamente) eis que aparecem em palco Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley. Apoteose total. A grande banda de Bristol novamente em palco para delírio de um Coliseu esgotado à praticamente dois meses.

A abrir a primeira música do novo álbum "Third". Depois, e para contemplação de todos os presentes nesta sala mítica um desfilar de êxitos de álbuns antigos e de futuros grandes êxitos deste novo "Third". Musicas como "Glory Box", "Roads", "Wandering Star", "All Mine", entre tantas outras, bem como as novas "Machine Gun", We Carry On", "The Rip" e "Hunter" fizeram os nossos ouvidos atingirem o nirvana.

Momentos mágicos para mim houve três: a versão quase acústica de "Wandering Star"; "Numb" totalmente inovado e brilhante; e claro está "Roads", que me fez recuar momentaneamente 9 anos na minha vida, e confesso a vocês todos que me fez saltitar pequenas lágrimas.... (sem dúvida uma das minhas músicas mais significativas e que faz-me recordar muita coisa).

Para finalizar este "pequeno" post (e porque já são 1h30m da madrugada de dia 28/03/08, e por isso sexta-feira dia de trabalho), deixo-vos aqui umas modestas fotos tiradas por mim no meio da plateia e até ser apanhado por um "Gorila", desculpem, segurança que me proibiu de tirar mais fotos (apesar de muitas máquinas e telemóveis continuarem com flashs a alvejarem o palco do Coliseu. Enfim...).


E para finalizar a última foto que consegui tirar. Segundos depois tinha uma enorme luz branca de um segurança apontada a mim que nem uma J3 do exercito "Tuga"!!! LOL

Desculpem-me mais uma vez a qualidade das fotos, mas é o que se pode arranjar!!! LOL

A gente vê-se!!!

10 janeiro 2008

É muito à Frente!!!

Foi no passado dia 19 de Novembro de 2007, que postei aqui sobre o novo álbum dos Radiohead, e sobre essa musica espectacular de apresentação desse estrondoso álbum - Nude (podem rever aqui esse post de então, e agora com um vídeo bem melhor). Continua, sem sombra de dúvida a ser a minha música preferida deste álbum - In Rainbows.

Então porquê de voltar aqui a falar deles?!? Porquê dar o título de "É muito à Frente" a este post, e novamente sobre os Radiohead?!?

Vamos por partes.

Primeiro. Por ser uma das minhas duas bandas preferidas, fico desde já muito contente e orgulhoso de após 1 semana de vendas ao público, este recente álbum desta banda de Oxford alcançar o 1º lugar de vendas quer na BillBoard e quer na tabela da BBC Radio 1. Sim podem constatar aqui e aqui. Para os mais curiosos e para os que não me conhecem, a outra banda são os Pearl Jam (também já com posts aqui dedicados).

Agora vem aquilo que acho mais espantoso de tudo. A história deste In Rainbows.

Era inicio de Novembro de 2007. E uma banda lembrou-se de começar a comercializar directamente para os seus fãs, via o website do próprio álbum, esse mesmo registo em formato digital MP3. A ideia consistia basicamente em clicar na compra online e o site perguntava quanto é que oferecíamos pelo álbum. Sei quem ofereceu ZERO libras, eu resolvi oferecer Uma libra por esse registo, pensando que estavam a brincar. Qual foi o meu espanto quando de seguida vi que tinha iniciado um download. Pouco minutos depois recebia um e-mail da banda. Era o recibo que comprovava a compra e autenticava a mesma. Nem queria acreditar!!! Era o meu mais barato álbum original de sempre. Feitas as contas 1 libra mais 0,45 de despesas bancárias. Só como nota, o álbum saiu para venda nas lojas a 28 de Dezembro de 2007 na Europa e a 1 de Janeiro deste ano nos EUA e Canadá. Eu comprei a 16 de Novembro!!!

Mas as surpresas não ficam por aqui.

As noticias de agrado e espanto por este In Rainbows chovia de todos os lados. Antes mesmo do fim do ano e após poucas semanas de divulgação chegou a ser considerado um dos melhores álbuns do ano que findou.

"In Rainbows had no serious rival this year" #1 BEST ALBUM 2007, NEW YORK MAGAZINE

"IN RAINBOWS is simply beautiful: warm, human, surprising and addictive" ALBUM OF THE YEAR - MOJO

#2 album of 2007 - Time Magazine


Finalmente uma banda acabou com o monopólio das editoras de música. A produção do álbum é própria, bem como os canais de distribuição. Ele foi comercializado aqui, e ainda pode ser encontrado no iTunes, para além das lojas habituais. É, segundo os próprios Radiohead, o álbum mais rentável da sua já longa carreira. Parte disso deve-se a não terem que distribuir os lucros das vendas de "discos" com ninguém, e o curioso disto, é que esta notícia saiu mesmo antes de ser colocado à vendas, em formado CD e Vinil, nos "locais habituais".

Penso sinceramente que este será o futuro da musica, ou seja, a globalização no seu estado mais puro e democrático. Todos têm acesso, todos podem ouvir, os seus autores recebem directamente a recompensa monetária do seu esforço e big bang criativo, sem editoras chupistas arrecadarem verbas avolumadas por momentos de inspiração criativa de terceiros.

Como se não chegasse, a banda gravou um vídeo de 52 minutos para ser divulgado na passagem de ano, há meia noite em ponto (GMT), de forma a comemorar a comercialização física deste In Rainbows. Esse "concerto" especial de fim-de-ano pode ainda ser visto aqui e aqui.

Mais uma vez, e depois de já nos terem surpreendido no inicio da década de 90 com os singles Creep, Fake Plastic Trees e High and Dry, e mais tarde com os estrondosos álbuns OK Computer e Kid A, é o regresso em grande com In Rainbows.

Em relação a concertos, foi já divulgado que haverá uma tourné Americana e outra Europeia. Algumas datas e cidades já foram adiantadas, contudo ainda não se sabe se eles vêm a Portugal.

Para finalizar deixo aqui alguns links que podem estar relacionados com os Radiohead, bem como mais um video deste In Rainbows - Reckoner.

Site oficial da banda: http://www.radiohead.com/deadairspace/
Site oficial sobre o álbum In Rainbows: http://radiohead.tbdrecords.com/
Espaço no Youtube dos RadioHead: http://www.youtube.com/profile?user=radiohead